domingo, 29 de junho de 2008

WALL-E:DEPOIS DO FIM DOS TEMPOS

A “verdade inconveniente” do ex-presidente norte-americano Al Gore, diz que a Terra está fadada a ser um mundo morto. Gore não gera “mau agouro”, apenas promove a sua pessoa, não sei se inadvertidamente, seguindo cientistas que temem por sérios desvios ecológicos.
O “fim do mundo” volta ao cinema depois de ter sido o prato principal do meu da guerra-fria, e, antes dela, das primeiras explosões atômicas. Se o tema serviu de forma livre, mais como muleta de uma criação que envolve a alma humana (para não dizer a mente), como em “O Fim dos Tempos”, o “acontecimento’(happening) de M. Night Shyamalan, agora serve a um poema desenhado, ao surpreendente “WALL-E” de Andrew Stanton e a turma da PIXAR, companhia que inaugurou a animação tridimensional e hoje é quem faz a festa na casa do Mickey Mouse(a Walt Disney Productions).
Segundo Stanton, em 2700 a Terra virou um lixeiro. Não se pode dizer que o mar não ficou para peixe, pois simplesmente deixou de existir. Os navios estão apodrecendo no seco. As grandes cidades acumulam detritos que são limpos, na medida do possível por uma raça de robôs. Enquanto isso, o gênero humano, ou o que sobrou dele (vê-se que a maioria foi para o brejo) passou a viver numa estação espacial imensa, onde tudo é automático, de tal forma que não se precisa nem andar atrás das coisas( as pessoas movem-se em carrinhos que as levam pelos diversos corredores e as “despejam” na pérgula de uma piscina onde a moda é ficar boiando (nem pensar em nadar). Este mundo novo é comandado por máquinas. E as máquinas são supervisionadas por outras máquinas. O comandante humano é um senhor obeso que vive comendo e já desaprendeu a mover as pernas. Por outro lado, periodicamente esses moradores do espaço mandam sondas à Terra para ver se o cenário mudou. E uma dessas sondas vai encontrar o Wall-E do titulo, robô que sobrou dos tantos garis deixados a fazer pirâmides de latas amassadas.
É desnecessário dizer que o filme esbanja técnica. O pessoal da PIXAR criou o desenho animado de longa-metragem tridimensional com “Toy Story”. Hoje é dono da bola. Mas o que vale exaltar é que essa turma não pára de criar, de inventar histórias, de produzir animação que não seja apenas pandas que lutam caratê.
“WALL-E” é um poema. Numa hora em que tocam “La Vie em Rose” a emoção vai às lágrimas. E quando se ouve “Assim Falou Zarastruta” sente-se a homenagem ao filme maior da sci-fi, “2001, Uma Odisséia no Espaço”. Aqui, os computadores maus apanham dos computadores bons. Não se desmerece a conquistas tecnológica em nome de política correta, seja ecológica seja novelesca. O que se quer dizer é que os homens podem estar no céu (e estão), mas sentem uma profunda nostalgia da Terra e não se furtam à uma viagem de volta quando sabem que do lixão nasceu uma planta.
O filme também é um romance. O pequeno Wall-E parece se apaixonar pela sonda que o visita. Há uma seqüência em que ele está virtualmente quebrado e ela vai à velha oficina de sua raça atrás de peças para reconstituí-lo. Feito o serviço, há um interregno de desmemoria para uma recuperação pelo toque (máquina com máquina).De comover!
Há inspiração de “Daqui a Cem Anos” (Things to Come/;1936) de H. G., Wells e William Cameron Menzies, de A Ùltima Esperança da Terra”(The Omega Man), história de Richard Matheson refilmada como “Eu Sou a Lenda”,e, como eu mencionei, de “2001”. Esses filmes ajudam um roteiro muito bom, com um final que emenda no primeiro plano (a Terra devastada vista do alto a simular uma foto de Marte feita agora por uma sonda) com o mesmo tipo de plano seguido de um travelling por sobre o que começa a florescer. Não tenham duvida que é outro gol da PIXAR. E penso que desta vez foi gol de placa, coisa que vai ficar na memória da cinematografia mundial. Não só de “cartoon”: é cinema-criação, aquilo que faz a gente gostar tanto dessa arte. (Pedro Veriano).

sábado, 28 de junho de 2008

A travessia de Shyamalan

Adolfo Gomes
É do cinema tornar visível as coisas, os seres. Até mesmo quando não é possível mostrar mais do que rastros, vestígios dessa ausência, é preciso encontrar um corpo, um módulo ou um formato de expressão. “Fim dos Tempos” (The Happening), do cineasta de origem indiana M. Night Shyalaman, é parte desse desafio do cinema em lidar com o invisível. E Shyalaman o enfrenta com a mesma fé com que Moisés separou o mar vermelho para sua travessia.Trata-se de acreditar nas imagens, o que nos dias de hoje equivale a reescrever as leis, voltar ao “antigo testamento” do cinema, segundo o qual reza um mandamento inaugural: filmar a natureza e os objetos como iguais.
Mais do que índice de presença ou até mesmo signo, é por meio deles que se opera a arte, o milagre de se modular o que não tem forma definida. O vento, por exemplo, que inspirou o clássico de Victor Sjöstrom, tinha a areia lancinante sobre o corpo de Lilian Gish, casas e estradas para lhe atestar uma existência cinematográfica.
No filme de Shyalaman, o vento tem um papel importante. Parece ser o centro gravitacional de sua poética, quer pelo que evoca de belo como de assustador. Mas a travessia a que ele empreende não seria segura, não fosse pelo anel, a planta de plástico, o prendedor de cabelo, o cortador de grama e os outros incontáveis objetos que lhe indicam o caminho.É mais do que uma ontologia dos objetos, porque para além das suas respectivas naturezas e finalidades cada um deles agrega novas possibilidades, funções, cadeias de ações e sentidos.
Na notável cena entre Mark Wahlberg e a jovem Ashlyn Sanchez (Jess), logo após a menina mergulhar na apreensão da perda definitiva dos pais, há o anel do protagonista, cuja pedra que o enfeita acredita-se capaz de expressar os sentimentos, mas que aqui, antes de diagnosticar, produz um estado de espírito. O professor de ciência (Wahlberg) arranca um sorriso à criança em meio ao terror, pura e exclusivamente graças a esse apetrecho. Estamos no domínio da metáfora e o que é mais belo: ela ainda é possível no cinema.
“Fim dos tempos” se inscreve na tradição dos filmes tácteis de Hollywood, de “Desejo Humano”, de Lang; à “Cinzas que queimam”, de Nicholas Ray; nos quais tudo em cena evoca a presença, a trilha, o afeto humano, sem necessariamente enquadrar homens, mulheres, crianças na perspectiva da câmera. O fora de campo, é consciência da arte, aqui como acolá - quer dizer: naqueles tempos.
Pois se a destruição imposta pelo homem à natureza e vice-versa, no caso do happening do filme, é mais do que visível, aquilo capaz de interromper esse processo aparentemente irreversível transcorre nessa fronteira entre a fé e o inexplicável.
Ainda assim, Shyalaman nós dá evidências: um campo entre duas casas, o vento soprando, um homem e uma mulher que já não têm dúvidas sobre o amor que sentem. Esse encontro pôs fim à destruição, à ameaça (in)visível?
Não cabem respostas fechadas... Como dizia Jean Cocteau, "não existe o amor, só existem provas do amor". E Shyalaman parece concordar com essa assertiva.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

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Pedro Veriano